O Buss gostava de desenhar. Andava pelo colégio luterano com suas artes debaixo dos braços. Os cabelos compridos, o cavanhaque ralo e as calças boca de sino costuradas em casa por ele mesmo. Sorriso largo, os olhos azulados semicerrados, o papo fluía. No pátio da escola que também homenageava Cônsul Carlos Renaux, seu caminho cruzou com o do Luís. Ele era amigo de infância do Zinho, outro cabeludo que andava com a Turma da Pedra. Alto, os olhos pareciam estar sempre sorrindo. Cara calmo e cheio dos projetos. O trio se formou ali. Andavam sempre um com o outro, juntavam seus trocados para comprar discos em Blumenau e sentavam no quarto do Luís para ouvi-los. 

CAPÍTULO 2-

Não era só o rock. Os desenhos, poesias e textos que circulavam em suas mãos produzidos por eles mesmos pareciam procurar abrigo. A coceira que afligia toda uma geração encontrou nos três uma chance de eclodir. Pelas mãos do trio viajava a Folha de S. Paulo, O Pasquim e um ou outro jornalzinho alternativo que conseguiam por aí. O pai do Luís era um jornalista respeitado na cidade, fazia programas de rádio e em algum momento chegou a produzir o próprio veículo impresso. Na casa dele, lugar que tanto frequentavam, a máquina de escrever de Celso Teixeira foi a catalisadora de um movimento que marcou as mentes mais inquietas dos anos setenta. 

Zinho escreveu o conceito, Luís fez a arte em letras garrafais que contornavam uma espiral por todo o papel stêncil. Fevereiro de 1974. Era a capa da primeira edição do jornal Cogumelo Atômico. Um texto do Zinho, desenhos do Buss, um poema do Luís e trechos de outros nomes que pareciam fazer sentido. Khalil Gibran, Fernando Pessoa, Ghandi e Alice Cooper. Tinha desenhos menores do Zinho e do Luís também, mas era isso. Sete páginas fedendo a álcool impressas de um só lado .

Além da máquina de escrever do pai, o Luís também conseguia acesso a um mimeógrafo na Liga Brusquense de Futebol, da qual seu tio era secretário. Reuniram-se os três num final de semana para rodar o projeto que saiu sem sofrimentos criativos. Trinta cópias da primeira edição se espalhavam para esperar o álcool secar pelo chão da sala do Edifício Centenário. Das janelas, se viam os jardins da Barão. Puseram tudo em ordem e grampearam para entregar aos amigos mais próximos. Sobrou  mais da metade.

No mês seguinte, o rock entra em pauta e nunca mais sai. A sopa tinha a sua receita. Elementos de literatura, poesia, desenhos e sons que tanto curtiam. Etimologia, Bob Dylan, John Lenon, históricos e textos explicativos. O trio se apresentava como guia. Levavam ao público suas leituras e escritas sem pretensões. Valia o caminho para se expressar . 

O Luís era quem coordenava a coisa toda. Ajeitava as páginas para que tudo coubesse direito, juntava os textos e preenchia os vazios com os desenhos que ele e os companheiros faziam. Por causa da profissão do pai, tinha acesso fácil ao que chegava nas bancas de jornais de Brusque. O acordo era uma espécie de permuta que valia quadrinhos, tabloides e revistas pela  propaganda do respeitado radialista Celso Teixeira. Luís se esbaldava. 

A revista Rolling Stone circulou no Brasil entre 71 e 73. Uma ou outra das 35 edições chegaram nas mãos do trio. A Folha de S. Paulo trazia a página Córrego Alegre, que abria espaço para música e cultura alternativa. Notas e matérias do que chamava a atenção eram recortadas e coladas em um caderno que engrossava e virava referência para consultas futuras. As colagens feitas por Luís renderam muito do conteúdo publicado nas primeiras edições do Cogumelo  Atômico, que já ganhava ares de vanguarda 

Era época de ouro da imprensa nanica. Jornais como o Cogumelo borbulhavam pelo país como forma de contestação ao governo militar. Outros impressos alternativos geralmente focavam em um único tema e por ali ficavam. Ecologia, educação, poesia, ficção, música e artes gráficas. A mistura que saía de Brusque não podia ser encontrada em outras páginas, se não nas mimeografadas pelo trio.

jornal cogumelo atomico capa