CAPÍTULO 4-

 Inês já era da Turma da Pedra quando começou a colaborar com o Cogumelo. Na verdade, ela e o Luís se aproximaram quando ele a assistiu atuar na peça Anjinho Bossa Nova, com uma trupe de teatro da cidade. As engrenagens trabalharam empolgadas e um novo projeto surgiu. Juntaram poemas dos amigos de correspondência que o Cogumelo havia apresentado e musicaram com as composições do Samuel. A primeira -e única- peça, uma espécie de recital ou musical, do que o Zinho chamava Movimento Cogumelo Atômico estava pronta para ser analisada minuciosamente pelos sensores nada sensíveis da DCDP. 

A Semente de Flor teve de ser montada como se fosse um dia de apresentação para que os homens da ditadura dessem um aval. Vieram da capital, sentaram ao lado do Luis, que dirigia o espetáculo, e torceram o nariz. Os poemas falavam de liberdade. 

Ou não entenderam ou não se importaram com uma peça pós-adolescente de uma cidade do interior. A performance correu toda a região e chegou até na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Se alguém começar a recitar, ainda hoje, o Samuel sabe os acordes e continuações das poesias

Na sua 15ª edição, o Cogu passou a ser offset. A tiragem chegava à casa das centenas e os custos de funcionamento gritavam por ajuda de todo lado que fosse possível. Pequenos anúncios passaram a figurar na primeira página e cada vez mais cidades assinavam os textos e desenhos publicados. O jornal passava de mão em mão e chegava a tanta gente que os gastos com correio saiam do controle. Todos queriam seus textos no Cogumelo Atômico. O Luís era quem administrava isso. Nas últimas levas, a Caixa Postal 179 recebia mais de quatrocentas cartas mensais. Menos de um décimo do que chegava era publicado. 

O Zinho e o Buss dançavam mais nos textos lúdicos, cheios de poesia, que pareciam abraçar com mais calor o que era tido como ideologia hippie. Não que o Luís não se enveredasse por esses caminhos, mas ele dava ao cogumelo um tom mais jornalístico, gostava dos fatos, das narrativas. Em uma das peças, escreve uma resenha sobre o 1º Rock Concert, que aconteceu em Florianópolis e o pessoal do Cogu foi conferir “carregados de alegria”. Não saíram da mesma forma. Desde a falta de organização à má qualidade do som, tudo foi notado. Nem os companheiros de plateia foram poupados, “Geração Boutique”, bando de “bundas-moles, tá sacando?”. O festival foi analisado minuciosamente em uma página e meia do Cogumelo Atômico. Faltou o rock na essência. 

capa cogumelo atomico

“Só desbundar uma guitarra não leva mais ninguém a ponto nenhum.”

As amizades famosas não impressionavam. Os parabéns ao diretor vinham de figurões de toda a cena alternativa do Brasil e do mundo. Ziraldo, do Pasquim, o cartunista Henfil e outros grandes enviaram seu incentivo aos criadores do Cogumelo Atômico. Também chegou a notícia de que o homem que desenhou Brasília estava circulando com alguns exemplares em baixo do braço. Houveram páginas do Cogu que davam voltas ao mundo. Desenhos do Uruguai, Angola, poesias dos Estados Unidos e cantos inimagináveis do Brasil, dividindo o mesmo espaço. As provas foram cuidadosamente guardadas em caixas que o Luís deixou no seu quarto, ao lado de outros jornais, fotografias e os originais do Cogumelo. Tudo foi transformado num caldo de lama e sujeira depois que sua casa ficou três dias em baixo d’água, por conta da enchente que inundou a cidade, em 1983 . Passou anos sem revisitar a memória do que foi perdido.

Muito material se foi. Aquele quarto abrigava a maior parte da memória do Cogumelo. O Luís era o centro, as coisas orbitavam ao seu redor. Seja por pura impaciência de esperar que algo acontecesse, por uma faísca de genialidade, ou uma mistura dos dois, era ele quem puxava o bonde. Márcia alimentava profunda admiração pelo rapaz só um bocado de anos mais velho.

É embaçada a memória de como começou a desenhar para o Cogu, mas foi ali que um projeto de carreira começou a ficar claro. Por causa do jornal, passou a trocar cartas com o pessoal da literatura. Foi estudar no Rio, fez artes de livros infantis, tornou-se ilustradora e professora universitária. 

Os braços do Cogumelo Atômico foram se expandindo. Na Araguaia, rádio em que o pai do Luís era locutor, os rapazes ganharam espaço para falar de rock e pirar a cuca da galera com os discos quentes que saiam da geladeira azul. “A Hora do Rock” tocava o que chegava de melhor das gringas e o “Som do Cogumelo” trabalhava só com artistas nacionais. O pessoal se empolgava. Vez ou outra aparecia um batendo no vidro, no meio do programa, com um som inédito para compartilhar. O trio colocava pra rodar assim mesmo, sem saber muito bem do que se tratava. Dava certo.

julgamento gilberto gil florianopolis

O barulho começou a incomodar. Amigos das redações reviradas pelos militares avisavam que, a qualquer momento, a vez do trio chegaria. Um desaparecia ali e surgia manco em outro canto, ou até morto. O frio na barriga aparecia vez em quando. A polícia estava sempre de olhos atentos ao pessoal da Turma da Pedra. Diminuíam a velocidade e enfiavam a cabeça pra fora esperando a brecha necessária para acordar os rapazes.

Com os amigos feitos através do Cogumelo, conseguiram organizar um grande show de rock no pavilhão da cidade, durante a semana de Brusque. Não sem serem incomodados. Gilberto Gil havia sido preso em Florianópolis há pouco tempo, por causa de um cigarro de maconha. O delegado e sua equipe ganharam fama repentina nas manchetes de todo o Brasil, e gostaram do negócio. O músico foi solto em pouco tempo e as trapalhadas do chefe de polícia viraram piada. Na tentativa de evitar o ostracismo -o que inevitavelmente aconteceu- os policiais decidiram perturbar outros grupos de rock que vieram para Santa Catarina, mais precisamente, Brusque. 

Alguns camaradas do trio nunca chegaram a se apresentar na cidade, pois as autoridades os barravam e mandavam de volta no mesmo ônibus em que vieram. A mesma equipe que prendeu o Gil agia feito urubus em busca de cabeludos com alguma relevância. Até tentaram sabotar todo o evento organizado com o apoio da administração municipal. Não conseguiram. O advogado da prefeitura dava o aval enquanto o delegado ameaçava “prender todo mundo”. O Luís tentava negociar na conversa, enquanto o Zinho mandou um sinal verde para as bandas que estremeceram o pavilhão. Ninguém foi preso.

Para o desgosto do Grimm, eles nunca deixaram a música de lado. Com o Buss na bateria, Samuel fez uns arranjos e o Luís chegou com uns poemas e seu violão. Os fãs de Pete Townshend montaram uma ópera rock sobre um homem que foi à lua. Ensaiaram e fizeram uma apresentação para a Turma da Pedra nos fundos da casa dos Teixeira. Seguiram o protocolo. Abertura, meio e fim. Foi a única vez que tocaram a peça em público. O Luís acabou vendendo o violão para comprar papel e nunca mais quis nem conversar sobre sua ópera rock. 

O Zinho juntou-se com um amigo e também botou a galera pra dançar. Não tocavam instrumento algum, mas mandavam ver na seleção das músicas e discos. A City Sound era uma festa que reunia milhares de jovens de Brusque num clube do centro. Dançavam, paqueravam e curtiam novos sons. Pouca gente tinha acesso ao que o Zinho botava pra tocar. Foi ali que Luiz Deschamps aprendeu a escutar rock. Poucos anos mais tarde, ele liderava o Bandeira Federal, que destroçou as fronteiras catarinenses com seu punk anos 80.

Nos últimos suspiros do Cogumelo, quando já cambaleava para seu fim, o pessoal aproveitou o acesso que tinha a centenas de artistas e fez uma convocação. Quem tivesse interesse, que enviasse seus poemas, pinturas, desenhos ou o que quer que produzisse para a Caixa Postal 179. E quem tivesse mais interesse ainda, que comparecesse à 1ª Coletiva Nacional de Arte de Rua, em Brusque. Foi nos jardins da Barão mesmo, uma semana de exposição das mais diversas obras de todo canto do país. O Grimm já fazia mostras de seu trabalho ali, mas a cidade nunca havia recebido algo daquelas dimensões. 

Em abril de 77, músicos, pintores e poetas foram chegando e se alojando na casa do Luís e do pessoal da Turma da Pedra. Era impossível ignorar o movimento que rolava na praça. Não se tinha notícia de outro evento que democratizasse o acesso à arte nos moldes da Coletiva. Os rapazes resgataram o folclore local com apresentações de Terno de Reis e Boi de Mamão. A cidade teve que abraçar. Colégios levaram seus alunos para ver as exposições, as pessoas vinham de longe conhecer e a imprensa de todo o país noticiou a mais nova aventura dos rapazes de Brusque.  O projeto superou o jornal, que acabou naquele mesmo ano. Por mais um par de edições, as Coletivas movimentaram a cidade, aumentando de tamanho e mudando de organizadores. O Zinho e o Buss casaram e quem acabou tocando foram o Grimm e o Luís, com o apoio da ASSAC e de João José Leal.