CAPÍTULO 1-

Voltava da Europa o jovem promotor da cidade de Brusque. Depois de uma temporada na Bélgica, João José Leal, retomava suas funções no gabinete e os hábitos que mantinha. Os ideais vanguardistas pululavam na cabeça que ainda não havia começado a ser abandonada pelos cabelos. Ex-líder estudantil, era nome proeminente em sua área, mas evitava alimentar grandes ambições devido a uma ficha no DOPS conquistada enquanto universitário na capital catarinense. Gostava da cidade. Em Brusque as ruas eram tranquilas, a pobreza escassa e o crime quase inexistia. Não conseguia enxergar nos rapazes brusquenses a sede que um dia teve por mudança. Asseados, trabalhavam em horários fixos, iam à igreja toda semana e passavam suas vidas sem desafiar. O questionamento da ditadura em vigor era indizível.

Assim como muitos que trabalhavam no centro da cidade, o promotor atravessava a praça em frente à imponente Igreja Matriz vez ou outra. A Barão do Schneeburg homenageia um dos antigos que enriqueceu na região. No cruzamento entre duas ruas, a praça era cercada por espaçosas calçadas brancas. Em seu interior, gramados verdes cortados por caminhos em lajotas e alguns bancos nos quais descansavam os menos atrasados e os que atrasavam o  último descanso.

De um lado da praça, lojas de tecidos, calçados, móveis e aviamentos, separadas por uma rua de paralelepípedo que, mesmo nos anos setenta, ainda era assolada por charretes que faziam companhia aos Fuscas, Corcéis e Passats. Do outro, uma cinzenta construção de pedra com longas colunas e uma cruz no topo marcava a paisagem.  No centro da Barão, em meio a um largo pátio, a estátua de Cônsul Carlos Renaux, mais um importante que passou por ali muitos anos antes. Com pintura em ferro, o homem de pé segura um pergaminho que toca o chão repleto de engrenagens. Ele observa a praça do alto de uma base em mármore carrara, que segura placas com seus feitos. Ao redor, quatro largos degraus de pedra que elevam ainda mais a estrutura.

Foi ao chegar perto da estátua que a atenção de João José Leal mudou de foco. Era atrevimento sentar-se ao redor do Cônsul, o que parecia atiçar aquele grupo de cabeludos a se jogarem ali enquanto conversavam, ouviam música e fumavam seus cigarros. O promotor seguiu a melodia que havia reconhecido de longe. Aquela canção de Geraldo Vandré não podia ser tocada em rádios, televisão, nem ser vendida em lojas de discos. E ali estavam eles. Não só a ouviam repetidamente, como a entoavam com vigor para quem passasse por ali. Sua chegada não os intimidou. As danças e risadas continuaram enquanto o homem de terno se aproximava. Para o espanto da Turma, o promotor entrou no coro e cantou com eles a canção que tanto gostava. Apresentou-se e trocaram ideias. A turma entendia de música, poesia, artes visuais e muito do que era caro para o promotor.

Não muito longe da praça, uma debutante de cabelos dourados, cuidadosamente escovados, observava com o canto dos olhos a movimentação ao redor da estátua. Ia de casa para o colégio de freiras sempre seguindo o caminho observada atentamente pelos irmãos. A Barão do Scnheeburg ficava quase no meio do trajeto, dela e de todos que tivessem qualquer coisa para resolver no centro da cidade. Moças de boa família e saias plissadas preferiam as calçadas mais afastadas da praça. Vânia andava com elas enquanto os pés apontavam na direção da Turma da Pedra, os dedos coçando para estalar no ritmo das melodias que os faziam flutuar sorridentes.

O passo apertado afrouxava quando o Cônsul surgia na paisagem. Os olhos produziam um reflexo que se tornava mais nítido quanto mais se aproximava. A filha única de três irmãos sentia o estômago revirar de uma maneira reconfortante ao assistir a cena que quase todo dia se repetia.

Samuel levava o violão para a praça e dedilhava enquanto os amigos faziam poesia. Os cabelos escuros repartidos ao meio caiam até a altura da barba cheia. Vê-se calma nos Cardeais. As irmãs o acompanhavam vez ou outra e entravam na ciranda. Pedaços de famílias, casais e camaradas, todos se reuniam para rir, falar de arte e provocar, mesmo sem querer, aqueles que não tinham coragem de chegar muito perto. Os mais velhos já passavam a prestar suas contas com o exército enquanto as pequenas mal começaram a escrever seus anos com dois dígitos. Não fazia diferença, nas saídas e escapadas dos colégios, o jardim da Barão era imã praqueles que ousavam deixar o vento pentear os cabelos. Sua comunhão era a arte, literatura, desenhos e o combustor da agonia reprimida, rock n’ roll. Um fino cigarro viajava nas mãos de uns e outros, mas a maioria não fazia questão. Não importava, meninas como Vânia ouviam sobre os horrores subversivos de toda “aquela turma afundada em drogas”.

Na casa do Luís, só refrigerante groselha. Rua João Luiz Gonzaga, 58, o quarto azul, depois da cozinha. No pequeno cômodo de poucos metros quadrados, se reunia a turma da pedra a fim de ouvir um pouco de música. Uma geladeira estragada, da mesma cor das paredes, guardava os discos já gastos de tanto rodar. Duas grandes caixas de som, uma em cada canto, faziam as paredes de madeira tremerem. Pink Floyd, Led Zeppelin, Jimmy Hendrix, Eric Clapton, dezenas de jovens se embolavam ali para descobrir novos sons, conversar e ainda filar as comidinhas que a mãe do Luís servia. Rapaz magro, de cabelos louros escorridos quase até os ombros, semblante fechado e jeito de poucos amigos. Os olhos azuis pensativos diziam mais que as palavras calmas nunca em vão. 

Aquele quarto era o outro ponto de encontro da Turma da Pedra. Desafiavam as leis da física regularmente juntando tanta gente num espaço tão pequeno. Enquanto no jardim da Barão os rapazes de carro próprio e cabelo penteado passavam zombando e jogando provocações, ali a turma tinha um teto. Quando andavam em bandos pela cidade, as senhorinhas corriam na janela para matar a curiosidade. Acordavam de madrugada, arrumavam mochilas com groselha e mata-fomes, botavam os violões nas costas e seguiam a pé do centro da cidade para um terreno dos Cardeais, a mais de duas horas de distância. Os piqueniques e trilhas na natureza eram a diversão dos finais de semana, quando não tinha festa na casa do Luís. Empoleiravam-se em árvores e, pendurados mesmo, cantavam e tocavam suas poesias. 

Enquanto Samuel e Luís entretiam com seus acordes, as irmãs mais novas acompanhavam sem perder nada. Márcia e Leila estudavam no colégio de freiras a poucos minutos da pedra do Cônsul. As colegas de sala já debutavam e sonhavam com seus maridos e as meninas bebiam da literatura e do rock n’roll dos amigos mais velhos. Não havia pretensão de causar alvoroço ou provocação, a turma gostava das mesmas coisas e dividia ideais de uma sociedade diferente. Pouco importavam os comentários que as garotas ouviam nos corredores entre as aulas.